Que infortúnio!
Sumiram com o cara que julgou o Pinochet e que ia ser entrevistado no Roda Viva. Hoje. Agora.
Repito: a vida é feita pra amolar a gente.
16/07
“Speaking a foreign language is like playing a musical instrument. It is not enough to master time; you have to own it.” (De um professor de italiano que tava no albergue de Tucumán.)
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Tá na hora de ir pra Bolívia. Já passou da hora. Eu vou amanhã.
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É tanta gente escrota nesse mundo, mell Dells. “You gotta stick to South America while you’re still VIP.” ¬¬ Cu com fritas. Idéia torta. Ah, Califórnia maldita. Tá nem aí pro resto, né?
Entristecedor, mas no plano abstrato. O concreto foi hoje no Mercado Central de Salta, quando veio aquela milanesa enooorme por 10 pesos, as coisas que estavam no prato até brilhavam, a gordura quase pingando da carne e da batata frita... sem dúvida foi o espírito do Biu que me impeliu a comer aquilo. Deixei um muncado no prato porque não agüentei comer tudo, então veio um menino e pediu pra comer o que tinha sobrado, e aquilo me partiu o coração em mil pedaços e eu fui pro andar superior porque queria tirar uma foto do povo que tava tocando instrumentos bolivianos lá embaixo, e de lá vi sem querer o menino com a boca cheia de batata frita e todo felizão e ele olhou pra cima e me viu e sorriu e eu fiz um sinal de jóia com a mão e ele assentiu sorrindo e eu fui embora agora já com o coração em pó, e é impossível não ter vontade de sentar na esquina e chorar um pouquinho, de ódio, de tristeza e de culpa, mas como me livrar desse americano agora?
Eu faço um esforço grande pra não generalizar a sério e pra não falar que não dá pra mexer com os americanos realmente acreditando no que digo, mas até agora a experiência tem repetidamente me desmentido, e há que se considerar que, diante do que a pessoa passa a vida inteira ouvindo nos Estados Unidos, há sempre a necessidade de se relativizar a culpa do indivíduo. De qualquer forma eu, que não evito ninguém por ser americano, começo a achar que já deveria ter começado a fazê-lo.
Vinte e quatro horas depois, eu ainda estava digerindo a comida.
15/07
Descanso em Tucumán. Cidade feia, ar seco, gripe e pé doendo.
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Fato: eu sou TÃO volúvel!
A pessoa vai dormir duas e meia da manhã depois de gastar todo o espanhol que não sabe e acorda sete horas ELÉTRICA como se tivesse tomado um choque. Graças ao Pedro (ou ao Cleuber?), isso tem nome: trata-se do fenômeno do BUTÃO ENCERADO, a grande mola-mestra da História. Fala que o Che não veio com essa história de revolução só porque queria impressionar alguém? E aquele cara que pisou na lua, é óbvio que no mínimo estava querendo fugir de uma obsessão amorosa.
Fato é que eu sou das pessoas mais burricidas que tem nesse sentido, e é bem raro que meu butão se encere parcialmente que seja, mas a seguinte combinação mostrou-se deveras eficaz em fazer com que eu sofresse os efeitos do (in)desejável fenômeno:
1. nacionalidade argentina / uruguaia;
2. idéias típicas da esquerda latino-americana;
3. conseqüência do anterior: livro do Eduardo Galeano debaixo do braço;
4. oio verde.
Ah nem.
[Tem hora que eu tenho vergonha de ser eu.]
14/07
A maquiagem totalmente te conta quem é a vilã nas novela tudo.
Tá passando "Siete Pecados" aqui. A voz da Priscila Fantin ficou muito estranha na dublagem.
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O trem que vai de Rosario pra Tucuman (e que na verdade sai é de Buenos Aires) parece aquele trem da Vale que vai pra Vitória. Ou seja, lição aprendida número 2: jamais pegar novamente o trem de B. A. pra Tucuman. Acho que o melhor é evitar trens em geral, pelo menos na América do Sul. O Trem da Morte eu nem cogitarei experimentar. Mas a verdade é que esses trens são baratos: paguei incríveis 36 pesos pra ir de Rosario até Tucuman na “primeira classe”.
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O esquema do mate é tão forte que mexe-e-vira eu vejo um ir pro carro-cozinha com uma garrafa térmica pra pegar água quente.
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Fiquei devendo o cara do carro-cozinha quinze centavos de peso pra sempre, porque só tinha notas de 100 pesos e 2,45 de trocado. A água custava 2,60. Sim, o dobro do preço normal, também. Não foi ruim negócio pra ele.
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Negócio completamente absurdo: saindo de Rosario, uma favela disgramada do capeta e, no meio da meninada suja e das bosta de cavalo e das casas com pé direito da minha altura, e do lixo e das coisas velhas, uma casinha pequena igual às outras, mas pintada de vermelho e com o escrito em branco na parede: “Centro Cultural Comunitário”.
Umas coisas assim, que cê não acredita que tá vendo.
13/07
Feira de antiguidades em Rosario: tinha um mosquito de ferro tão grande, tão perfeito e tão horrível que eu fiquei com vontade de comprar. Mas era pesado e devia ser caro.
Preciso tomar mais cuidado com o que eu escrevo.
Veja como um infortúnio pode resultar em algo ótimo: em um momento de insanidade, escrevi uma carta de compromisso dizendo que freqüentaria regularmente as aulas do preparatório do TOELF do CENEX até o fim do curso. Depois de assistir duas aulas, me arrependi amargamente, não porque a professora fosse ruim, porque na verdade ela faz o serviço dela muito bem, mas sim porque percebi que o assunto realmente não me interessava.
Após ter que tolerar por cerca de dez minutos duas bobas-com-a-palavra se apresentando, escrevi alguns pensamentos assassinos na parte de trás do material do curso porque admirar minha letra me alivia algumas tensões, e saí da sala pra enrolar na sala dos estagiários. Os escritos consistiam em algo sobre esfaquear alguém para que calasse a boca, e depois a palavra "amolação" repetida várias vezes. Eu estava desesperada de vergonha pelas bobas-com-a-palavra.
Quando voltei, tive a certeza de que a professora, apesar de seus escrúpulos norte-americanos, havia lido meus escritos macabros. (Incrível como a intuição do ser humano faz parte da sua vida loka.) Fiquei com vergonha, pois ela certamente já estava pensando que eu era uma psicopata prestes a provocar quem sabe outro incidente que levaria a FALE pro jornal. ¬¬
Então hoje ela me chamou pra conversar, se desculpou por ter lido os esquemas, ofereceu uma justificativa podre e me perguntou se eu queria realmente estar ali. Isso na boa, claro, pois ela não queria ser esfaqueada. Eu, visivelmente mentindo, disse que sim. Ela disse que a carta de compromisso podia ser esquecida e que tudo estava na boa, e que era pra eu pelo menos pensar no assunto. Voltamos pra sala e, quando ela falou meu nome na chamada, eu disse que não ia ficar e saí, e agora tenho meu horário de almoço de volta. À custa de qualquer possível crédito com a professora (e possivelmente com o supervisor do Cenex pra quem eu entreguei a carta de compromisso), mas, olha, acho que compensou.
Mesmo assim, vou tentar manter meus pensamentos assassinos fora do papel daqui em diante. (Parece tão sensato! Eu já devia ter chegado a essa conclusão antes.) Ou então inventar um código pra escrever toda vez que quiser matar alguém, porque as coisas estão num ponto em que meros pensamentos podem causar grande terror. Qualquer semelhança com algum outro país não é mera coincidência.
Duas coisas muito estranhas aconteceram ontem:
1. Um homem armado invadiu a sala de estagiários do CENEX e disparou três vezes: uma acertou na parede, outra num dos computadores e outra, bom, na cabeça dele mesmo. Tá em coma no hospital, a criança.
2. Eu acho que eu ganhei um Fusca.
11/07
“A gente tava em outra vibe...”
(Frase que, ouvida da boca de uma criatura extremamente paulista em um momento nada sóbrio, gerou altos devaneios infundados sobre a situação da juventude brasileira.)
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“Homem é microondas, mulher é fogão a lenha.” (Yan. Ah é, é com Y.)
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Lição aprendida: não mexer com gin.
10/07
“Leis fenomenológicas são as regras extraídas diretamente da observação dos fenômenos, sem análise de seus fundamentos.”
“Em cada órbita, o segumento de reta que une o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais.”
(De um livro tirado aleatoriamente da estante da biblioteca da Faculdade de Engenharia da UBA (era em português, mesmo).)
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Fato: se ocê ver uma pessoa quieta no canto dela, pode saber que não é brasileiro. Brasileiro é viciado em socializar. Brasileiro não agüenta o silêncio, nem a solidão. Se estiver lendo um livro, então, pode apostar sua vida.
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Telefones semi-públicos: fiquei só imaginando o que diabos...
09/07
Possível manchete de jornal: “Kirchner gasta 1% do PIB em lápis de olho”
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“Brasileiro é muito fácil de conhecer, né? Gente falando alto, dando esparro... é brasileiro.” (Ian)
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Menino carioca no metrô comigo:
- Aí tem um Garamirun, ele tem um poder muito forte, ele tira a mão das costas e faz assim, ó, e tenta matar o Quebamirun, que não é muito amigo dele, é só mais ou menos [!].
- Hum, que bom, hein?
- Aí tem o Caxamiramirun que é mais ruim que ele...
Vira a mãe, também carioca, e corrige:
- Não é “mais ruim” que a gente diz, é “pior”.
E o lugar de descer, cadê.
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“Não tem como desligar esse inferno desse aquecimento, não?!” (Não lembro quem disse, se foi o Ian, o Luís, a Taís ou eu.)
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- Chegou uma brasileira!
Geral:
- Êeeeeee!
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“You don’t need much money for Bolivia, that I can tell ya.” (conselhos certeiros do Rob.)
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